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Mostrando postagens de 2010

"A Morta", de Oswald de Andrade: um convite ao teatro antropofágico

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"A Morta", peça de Oswald de Andrade escrita em 1937, é a última e mais densa peça do poeta modernista. Apresentada em três quadros, O País do Indivíduo, O País da Gramática e O País da Anestesia, esta obra soma-se a outras duas peças do autor,  O Rei da Vela e O Homem e o Cavalo, e formam a “Trilogia da Devoração” do Teatro Antropofágico de Oswald.     A peça reflete grande inquietude deste poeta, criando um teatro que possibilita um experimento com a linguagem. Muitos conhecem o Oswald de Andrade poeta e crítico do modernismo, e suas peças teatrais passam despercebidas pelo olhar do leitor. Um erro impetuoso, pois suas peças são verdadeiros gritos. Diante d’A Morta, o leitor deve montar um mosaico, pois a peça é uma teia de referências (intertextos), os personagens não têm suas personalidades próprias, funcionam como índices. Beatriz, a personagem central, que foi a musa inspiradora de Dante; Horácio, grande poeta lírico; o personagem Urubu, que faz re...

Lanternas sentimentais no escuro da morte

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      Certo poema do Mário de Sá-Carneiro diz: “Perdi-me dentro de mim, porque eu era labirinto”. Às vezes, nos vemos perdidos em labirintos de Dédalo sem fio. E quem se perdeu do fio foi uma poetisa que acabou com a vida por causa da arte. Túneis escuros, pouca luz para esta cena.             Há pouco mais de um mês, no dia 5 de outubro de 2010, um caso um tanto peculiar: A poetisa e artista plástica Maria Cristina Gama, aracajuana, se suicida com uma faca, pois não conseguia mais lançar livros e que ninguém mais lia poesias no mundo contemporâneo. Era uma grande artista que pintava com as palavras e trabalhava a linguagem ao máximo. Certamente a velocidade do mundo moderno rasgou as linhas de seus pensamentos. Mundo cada vez mais globalizado e virtualizado nos campos do ciberespaços. Leia também: Rede cada vez mais rede   Virtualização do corpo: os caminhos de sua antropologia visual  ...

Semiótica e fotografia: algumas notas

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 ‘A fotografia sempre me espanta’, dizia Roland Barthes em A Câmara Clara .  Embora não tenha surgido com o intuito de substituir a pintura, a fotografia superou o retrato a óleo sobre tela por questões técnicas. Tentaremos pensar, aqui, a fotografia como um processo artístico capaz de representar mimeticamente o mundo exterior dentro da pesquisa semiótica.                      Roland Barthes indagava: “Será que a imagem é simplesmente uma duplicata de certas informações que um texto contém e, portanto, um fenômeno de redundância, ou será que o texto acrescenta novas informações à imagem?” Essa relação Palavra x Imagem é um tanto cara para eu me aprofundar aqui, tendo em face suas semelhanças e distinções no rol de aspectos imagéticos, até porque poderíamos passar horas discorrendo sobre imagens verbais e imagens mentais, bem como a imagem da palavra – ou o que Alfredo B...

Os caminhos de Monteiro Lobato na escola.

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            Obra de Lobato sob a ameaça de ser censurada na escola pública ou que venha com um aviso de conteúdo racista. A literatura de Monteiro Lobato é danosa para as crianças? A tentativa de evitar que crianças a leiam partiu de um mestrando.            Na última sexta-feira, 29 de outubro, o servidor da Secretaria do Estado da Educação do DF, Antonio Gomes da Costa Neto, encaminhou a denúncia de que partes do livro ‘Caçadas de Pedrinho’, de Monteiro Lobato, teriam conteúdo racista e que o autor devia ser evitado nas Escolas. O jornal ESTADÃO publicou uma matéria e recorto aqui o seguinte trecho: Para o CNE [Conselho Nacional de Educação], os professores da rede pública não estão preparados para lidar com esse tipo de mensagem em sala de aula. O autor da denúncia, o mestrando em relações raciais da UnB Antonio Gomes da Costa Neto, acredita que o livro de Lobato “d...

Literatura, Arte e Mercadoria em diálogo: A ilusão da liberdade da arte.

            A pergunta que sempre será recorrente é: para que serve a arte? Uma pergunta, pois, ausente de pensamento. E aqueles que fazem essa pergunta também questionam para que serve a literatura e, pior, querem saber o que literatura tem “a ver” com arte. Como se estivéssemos falando de um Serviço Militar para a arte ter de servir. Quem acha que a poesia deve servir para alguma coisa ou dar lucro não ama, de verdade, a poesia. Para pensar a arte e a literatura com pano de fundo o mundo burguês e a mercadoria, trazemos à luz o ensaio de Paulo Leminski, Arte In-útil, arte livre? (que está no seu livro Anseios Crípticos , 1997) e, após, alguns trechos de outros ensaios do mesmo livro, para concluir o pensamento da arte e da poesia. ARAUJO, RODRIGO M. S. ARTE IN-ÚTIL, ARTE LIVRE? A curiosa idéia de que a arte não está a serviço de nada a não ser de si mesma é relativamente recente. Data do romantismo europeu do século X...

[Dica de Leitura] A Poesia do Acaso

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       A dica de leitura do líriospretos vai para os interessados no movimento contracultural e na poesia spray, desde a sua origem nos muros da Sorbonne de maio de 1968 até a chegada do movimento e da poesia marginal no Brasil. O livro da Cristina Fonseca, A poesia do Acaso (na transversal da cidade) é um desses raros de se encontrar nas estantes, reúne várias poesias-spray, grafismo como define, bem como algumas entrevistas sobre essa poética que ultrapassa o código verbal, que tende para o não-verbal: icônico.        A radicalidade do pensamento mallarmaico foi o lance de dados para a poesia concreta, reinventa um código de comunicação, joga arquitetonicamente as palavras na folha em branco, no grande branco do silêncio. Dentre a reunião de entrevistas que o livro abarca, notável a entrevista do Décio Pignatari, de setembro de 81, onde ele fala da poesia marginal, do movimento contracultural e do spray, um ato público ...

Semiótica e literatura: quando o ícone invade o corpo verbal

É bem verdade que a Lógica seria um outro nome para a teoria geral dos signos (semiótica) postulada por Charles Sanders Peirce, onde ela está, ao lado da Ética e da Estética, no tripé das ciências normativas, ciência das leis necessárias do pensamento na busca da verdade. Para o leigo em semiótica, atentemo-nos ao fato de Semiótica (e vamos distinguir aqui Semiótica de Semiologia – estruturalista) dar conta das manifestações signicas, ciência nova, mas que (graças a Deus!) já vem sendo muito pesquisada nas universidades do Brasil, formando um rol de grandes estudiosos. Mas é importante atentar para o fato de não reduzir a Semiótica apenas à gramática especulativa, isto é, aos estudos do signo, visto que a Semiótica alicerça a lógica crítica e a metodêutica. Por enquanto, ficaremos com a citação de Décio Pignatari (2004, p. 21) acerca da teoria dos signos: “A semiótica, ou teoria geral dos signos, é uma indagação sobre a natureza dos signos e suas relações, entendendo-se por signo tudo...

O poeta que escreve silêncios: Arthur Rimbaud.

O poeta aventureiro Arthur Rimbaud, maldito como dizem alguns, teve uma vida intensa, explosiva como dinamite, quando a poesia aflorou em seus treze anos de idade, mas apenas por um curto período, onde viveu até os trinta e sete anos. Enquanto Baudelaire pintava a floresta de símbolos, Rimbaud “escrevia os silêncios, as noites, anotava o inexprimível” em (talvez) a mais significativa obra “ Une saison en enfer ”, marcada pelos Délires e pelo Mau Sangue . Deve-se notar – para sintetizar (muito) essas linhas que dizem respeito à vida e contexto histórico – que as inquietações de Rimbaud refletidas em sua poética devem-se a, pelo menos, dois fatores: primeiro, a guerra entre França e Prússia, a desordem que se instala em Paris com a queda do Segundo Império e a fome nas ruas; segundo, crises do poeta que o leva a enviar uma correspondência ao poeta Verlaine com seus poemas, culminando a sua ida a Paris por pedido de Verlaine. Não obstante, convém lembrar que, na esteira do simbolismo, o...

Fim de século: perspectivas para as vanguardas e a modernidade.

-->             O final do século XIX foi decisivo para o nascimento da boemia literária, dos vários “ismos” que surgem, dos movimentos vanguardistas, dos manifestos, enfim, do que a história da literatura chama de estética renovadora. Para compreender, por exemplo, o itinerário da literatura modernista brasileira e sua proposta, faz-se indispensável um percurso e conhecimento que aqui será feito (por mais sintético e metodológico que seja) dos ideais vanguardistas que efervesciam a Europa. O primeiro momento do modernismo brasileiro vem trazer essas tendências européias (onde Oswald de Andrade bem ilustra o espírito modernista importado da Europa em seu manifesto antropofágico), observando os quadros-revelação de Anita Malfatti, por exemplo. Mario de Andrade chama atenção para um espírito revolucionário de guerra produzidos em nós pelo momento europeu de vanguarda em seu “movimento modernista” - ANDRADE, 1978, p.231). Esse...

A Topofilia do Sertão na Literatura Brasileira: Recortes e uma Fotografia do Brasil.

            Esta resenha crítica é fruto de discussões do mini-curso sobre a obra poética de Guimarães Rosa no Encontro Regional de Letras de 2010 acerca da problemática da leitura de espaços na literatura rosiana bem como da nação. Aqui, serão alçados três pontos importantes (e propositais) para discorremos sobre o tema e discernir a problemática. Primeiro, em busca de uma definição filosófica da topofilia, desembocando em três momentos da literatura: o pré-modernismo , o chamado regionalismo nordestino de 30 e a geração de 45 , onde serão feitas algumas leituras do sertão que cada um desses momentos na literatura retrata. Segundo, compreender o Brasil a partir da leitura do primeiro tópico como uma nação heterogênea por formação histórica. Terceiro, o modo como Guimarães Rosa fotografa o Brasil e capta uma nação contraditória, onde se valerão algumas análises calcadas na semiótica da fotografia. 1     ...