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Mostrando postagens com o rótulo CINEMA JAPONÊS

Uma certa cartomante: ação e destino em Mikio Naruse

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                            Mikio Naruse nos deixou uma lista invejável de filmes: mais ou menos cinquenta e um. Tratarei de um filme de 1960,  Quando a mulher sobe as escadas.  O filme trata de uma personagem, Keiko, ou também chamada de "Mama", que trabalha como hôtesse nos bares de Ginza, durante as noites em que os homens nada mais querem que um copo de conhaque, ou um  Black & White  com água, e uma mulher para se divertir. Para ter acesso ao bar onde trabalha, Mama tem que subir alguns degraus que, para ela, parecem assumir os contornos de uma verdadeira via-crucis. " Eu odiava subir aquelas escadas, mais do que qualquer coisa ", pensa Mama.                 O dinheiro é uma questão central neste filme, assumindo diversas implicações na narrativa e sendo decisivo nas tomadas de decisões da protagonista. Mama está enfastiada da vi...

Alegria breve em Shohei Imamura

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Ora vejam: por que ainda nos assombra a crueldade? E chorar? Não é evidente que choramos não apenas diante da dor e do horror da vida? Não é isto que nos diz o padre António Vieira ao referir-se ao riso de Demócrito como uma ironia da lágrima? (A. Vieira, in As lágrimas de Heráclito , sermão italiano em edição brasileira pela Ed. 34). Ou tudo isto – amor, tristeza, raiva, alegria – não é senão afeto? Difícil mesmo é definir o cinema de Imamura dentro do cinema japonês pós-50. Quer dizer: fácil, mas igualmente fácil de se perder e ficar no óbvio. Cinema escorregadio. Minado. Cruel, às vezes. Começo pela sua crítica. Muito concentrada, aliás, nas primeiras produções de Imamura: “a predileção pelas camadas mais baixas da sociedade” como tema nuclear (Maria Roberta Novielli, in História do Cinema Japonês , 2007, Ed. UnB, p. 221); o que logo lhe rendeu a etiqueta de sociólogo do cinema japonês : “Imamura’s fascination with social anthropology” (Tom Mes and Jasper Sharp in The Midnight...

Curva da margem: Shuji Terayama e outros

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minha poesia não canta nada – como haveria de cantar? – berra todo nosso sufoco como um doido na camisa-de-força. vem do útero do ânus estuprado do peito doente da cirrose do fígado. minha poesia é o pânico a quarta dimensão terrível da vida consumada no porto da barra pesada das penitenciárias dos hospícios do pervintin da maconha da cachaça do povo na rua – do povo de minha laia. minha poesia é o hino dos libertinos q conspiram na noite dos generais... (Ras Adauto, poema “A pombinha e o urbanóide”, in: 26 POETAS HOJE, Org. Heloisa Buarque de Hollanda, 6ª Ed. 2007, p. 251).             Este poema do Ras Adauto é, para mim, um dos que melhor sintetiza o momento da poesia contracultural brasileira, da poesia marginal daqueles anos 70, ou poesia clandestina, como chamou Glauco Mattoso em seu livrinho O que é poesia marginal (Ed. Brasiliense, 2ª ...

Kon Ichikawa, ainda... Solidão, existência e morte

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Com Harpa da Birmânia e Fogo na Planície podemos ver personagens em plena queda livre, ou em pleno mergulho no sofrimento existencial: Mizushima, mesmo movido por grande esperança, mergulha na tristeza do ser; Tamura, mesmo resistindo ao canibalismo, mergulha no que há de mais podre na existência. Percebe-se o interesse de Kon Ichikawa, neste momento, por personagens que reflexionam aquilo que o filósofo Blaise Pascal insistiu em seu pensamento, em pleno racionalismo cartesiano do século XVII, que é o estar diante da fragilidade das coisas e da miséria humana . Penso que Mizushima, o harpista, seja o personagem que melhor compreendeu que a grandeza do homem é re-conhecer sua miserabilidade, como nos diz Pascal no belíssimo Fragmento 114 de sua obra Pensamentos (2005, Ed. Martins Fontes): “ A grandeza do homem é grande por ele conhecer-se miserável ”. Não parece distante daquela “primeira grande verdade” ( Dukka ) que ensinou Buda no budismo primitivo: que nascer já é sofrer e é pr...

Exercícios negativos de Kon Ichikawa

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O título destas notas já é autoexplicativo. Quer dizer, já aponta para o tipo de leitura que segue. Para o leitor do pensador romeno Emil Cioran, é sabido que “ Exercícios negativos ” foi o título de rascunho para a primeira obra em língua francesa deste prosador radicado em Paris, o “ Breviário de Decomposição ” ( Précis de décomposition ). Nestas notas, meu objetivo é: ler dois filmes dos anos 1950 do Kon Ichikawa guiado pela filosofia de Cioran. Nascido em 1915, Kon Ichikawa tem uma vasta produção, e em alguns de seus filmes trabalhou conjuntamente com a esposa, Natto Wada. A pesquisadora em cinema japonês, Maria Novielli, tinha tudo para fazer de sua enciclopédia, “ História do Cinema Japonês ”, uma obra grandiosa, mas suas análises e descrenças em alguns diretores chegam a ser assustadoras em determinados pontos, deixando sua obra bastante mediana em termos de crítica. No tópico dedicado ao Kon Ichikawa, Novielli começa argumentando que até o início dos anos 1960, Ichikawa “ ...