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Maria Altamira (2020), de Maria José Silveira: memória de leitura

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  Quando o livro chegou, meu primeiro contato foi logo de expectativas, graças ao belíssimo trabalho de capa feito pela Editora Instante – que eu desconhecia. Na capa, está estampado um mapa, quase em close, da América do Sul, mais destacando o Brasil e algumas cidades, as informações da obra e uma “orelha”, a parte do livro que chamamos orelha, mas dobrada para o lado contrário. Como de costume, fui para o escritório, ajeitei a poltrona, sentei, ignorei as informações que antecediam o romance (depoimentos “sobre o livro”) para ir direto para a leitura.    Sem o menor conhecimento prévio do que iria ler, em termos de obra/autora, fora o título-nome-de-cidade ( Altamira ), que minimamente conheço sobre, e apenas a indicação de que seria algo em torno da questão indígena, adentrei na narrativa. Demorei cinco dias para ler a obra. Não conseguia ultrapassar mais do que cinquenta páginas por dia. Tinha de fazer pausas a cada capítulo. Não tanto no início, porque a primeira par...

Uma certa cartomante: ação e destino em Mikio Naruse

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                            Mikio Naruse nos deixou uma lista invejável de filmes: mais ou menos cinquenta e um. Tratarei de um filme de 1960,  Quando a mulher sobe as escadas.  O filme trata de uma personagem, Keiko, ou também chamada de "Mama", que trabalha como hôtesse nos bares de Ginza, durante as noites em que os homens nada mais querem que um copo de conhaque, ou um  Black & White  com água, e uma mulher para se divertir. Para ter acesso ao bar onde trabalha, Mama tem que subir alguns degraus que, para ela, parecem assumir os contornos de uma verdadeira via-crucis. " Eu odiava subir aquelas escadas, mais do que qualquer coisa ", pensa Mama.                 O dinheiro é uma questão central neste filme, assumindo diversas implicações na narrativa e sendo decisivo nas tomadas de decisões da protagonista. Mama está enfastiada da vi...

Alegria breve em Shohei Imamura

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Ora vejam: por que ainda nos assombra a crueldade? E chorar? Não é evidente que choramos não apenas diante da dor e do horror da vida? Não é isto que nos diz o padre António Vieira ao referir-se ao riso de Demócrito como uma ironia da lágrima? (A. Vieira, in As lágrimas de Heráclito , sermão italiano em edição brasileira pela Ed. 34). Ou tudo isto – amor, tristeza, raiva, alegria – não é senão afeto? Difícil mesmo é definir o cinema de Imamura dentro do cinema japonês pós-50. Quer dizer: fácil, mas igualmente fácil de se perder e ficar no óbvio. Cinema escorregadio. Minado. Cruel, às vezes. Começo pela sua crítica. Muito concentrada, aliás, nas primeiras produções de Imamura: “a predileção pelas camadas mais baixas da sociedade” como tema nuclear (Maria Roberta Novielli, in História do Cinema Japonês , 2007, Ed. UnB, p. 221); o que logo lhe rendeu a etiqueta de sociólogo do cinema japonês : “Imamura’s fascination with social anthropology” (Tom Mes and Jasper Sharp in The Midnight...

A vida como bailado

A morada do homem, o extraordinário (Heráclito, Fragmento 119, Diagrama) Eu morro ontem, Nasço amanhã, Ando onde há espaço (Vinícius de Moraes, Poética)        Não. A sensação é esta: ser estrangeiro não é apenas uma mudança de espacialidade, é descentralizar-se, ou melhor: é desterritorializar-se. Sim, estou a pensar em Félix Guattari, quando em sua obra Caosmose nos fala do sujeito contemporâneo desterritorializado, sem terra natal, sem ponto de origem. Tudo está em movimento. « Tudo circula […] tudo se tornou intercambiável» (Guattari, Caosmose ,1992, edição brasileira, Editora 34, p. 169). Estamos sempre a ser turistas (de nós mesmos) em terras outras. Sujeitos errantes como o flâneur baudelairiano das cinzentas ruas de Paris. Ser estrangeiro é jogar no espaço do Outro – desse mesmo Outro que os Estudos Culturais se ocupam: o negro, o gay, o colonizado. É jogar no campo da diferença cultural, da identidade, do hibridismo – inegável a co...

A vida em desuso

A vida é um hospital Onde quase tudo falta. Por isso ninguém se cura E morrer é que é ter alta (FERNANDO PESSOA, In: Quadras . Lisboa: Assírio e Alvim, p. 50).            Talvez os poetas sejam os que melhor sentem e experienciam as agruras da vida, os que mais se encontram desencaixados no mundo, os que mais nutrem uma espécie atormentadora de inconformação com a realidade. Sujeitos que convivem com uma dor diária, com uma melancolia que desbota a cor do real a sua volta – claro, nem toda poesia é isto, e nem toda criação literária nascerá deste pranto. Estes poetas – atormentados, inconformados, incapazes, rebeldes algumas vezes, transgressoras outras vezes – carregam algo daquilo que um pensador romeno, Emil Cioran, falava a respeito da vida: um banho de fogo de enfermidade (sobretudo em sua primeira obra escrito em romeno, Sur les cimes du désespoir , “Nos cumes do desespero”), onde não há esperanças, onde não há saídas, onde não h...

Curva da margem: Shuji Terayama e outros

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minha poesia não canta nada – como haveria de cantar? – berra todo nosso sufoco como um doido na camisa-de-força. vem do útero do ânus estuprado do peito doente da cirrose do fígado. minha poesia é o pânico a quarta dimensão terrível da vida consumada no porto da barra pesada das penitenciárias dos hospícios do pervintin da maconha da cachaça do povo na rua – do povo de minha laia. minha poesia é o hino dos libertinos q conspiram na noite dos generais... (Ras Adauto, poema “A pombinha e o urbanóide”, in: 26 POETAS HOJE, Org. Heloisa Buarque de Hollanda, 6ª Ed. 2007, p. 251).             Este poema do Ras Adauto é, para mim, um dos que melhor sintetiza o momento da poesia contracultural brasileira, da poesia marginal daqueles anos 70, ou poesia clandestina, como chamou Glauco Mattoso em seu livrinho O que é poesia marginal (Ed. Brasiliense, 2ª ...

O poema. O negativo. A tortura. Notas para encerrar 2014

Este blog não pode encerrar o ano de 2014 sem sublinhar dois poemas nucleares do recente livro ESTADO CRÍTICO (2013, Editora Hedra), do poeta paulistano Régis Bonvicino. Num livro cheio de citações, que absorve o barulho e o silêncio (veja o humor e contradição nisto) da grande metrópole, perpassado por metalinguagem, estes dois poemas que aqui reproduzo corporalizam bem algo que sempre tenho em mente acerca do que é poesia , do poder da poesia , de sua função : ser ruptura e subversão (da forma, a "desestabilização" como vemos em Heloisa B. H. em seu prefácio à antologia 26 Poetas Hoje , referente à poesia marginal, ou clandestina , como dizia Glauco Mattoso), que chegue, toque e atinja todas as camadas da vida : poesia-vida . Reproduzo abaixo os poemas: "Poema negativo" (primeiro poema do livro) e "Tortura". Poema negativo Régis Bonvicino, 2013 Um poema negativo é o que se paga bônus Sem vender livros Respira por aparelhos críticos ...