Maria Altamira (2020), de Maria José Silveira: memória de leitura

 



Quando o livro chegou, meu primeiro contato foi logo de expectativas, graças ao belíssimo trabalho de capa feito pela Editora Instante – que eu desconhecia. Na capa, está estampado um mapa, quase em close, da América do Sul, mais destacando o Brasil e algumas cidades, as informações da obra e uma “orelha”, a parte do livro que chamamos orelha, mas dobrada para o lado contrário. Como de costume, fui para o escritório, ajeitei a poltrona, sentei, ignorei as informações que antecediam o romance (depoimentos “sobre o livro”) para ir direto para a leitura.  




Sem o menor conhecimento prévio do que iria ler, em termos de obra/autora, fora o título-nome-de-cidade (Altamira), que minimamente conheço sobre, e apenas a indicação de que seria algo em torno da questão indígena, adentrei na narrativa. Demorei cinco dias para ler a obra. Não conseguia ultrapassar mais do que cinquenta páginas por dia. Tinha de fazer pausas a cada capítulo. Não tanto no início, porque a primeira parte do romance, intitulada “A mãe”, se dedica a contar o “motivo” e as errâncias da personagem Alelí. Acabei acompanhando com entusiasmo as viagens de Alelí pela América do Sul, mesmo sabendo do motivo: uma tragédia. Mas o entusiasmo foi logo começando a ser substituído por asco, porque o próprio narrador, ocasionalmente, parecia não defender muito a personagem. “Feia de dar dó” (p. 40), “magricela” (p. 43), “feia que nem galinha depenada pronta para o fogão” (p. 50). Mas a aversão mesmo ficou por conta das constantes passagens em que a personagem Alelí pegava seu canivete adquirido e, silenciosa e de maneira sorrateira, começa a se cortar, nunca indo a fundo no ato. Na primeira vez em que ela começou a automutilar, não entendi. Quer dizer, supus o padrão (punição, transtorno, por aí...). Só com o avançar da narrativa fui percebendo/sentindo que Alelí estava fazendo aquilo mais como uma forma de saber ou de lembrar a si mesma que ela estava viva, que ela estava ali, naquelas condições, fugindo do assombro de ter sido uma das poucas a sobreviver ao desastre de sua cidade, Yungay, completamente soterrada, além de atormentada pela morte de todo seu ciclo, incluindo sua única filha ainda novinha. De algum modo Alelí achou um prazer naquela cena recorrente de se cortar, sempre iniciada quando ela era confrontada com algo. Foi uma parte difícil de ser lida e digerida, entretanto. Não que a cena em si me sensibilize ou me choque, mas o conjunto de situações estava me sufocando, principalmente quando Alelí começava a cantar. Na minha imaginação, o canto parece que já saía árido. Aquele canto que não se contenta em tocar o ouvinte pela percepção, mas que vira a pessoa do avesso. Inclusive, quando lia, automaticamente em minha cabeça tocava aquela música, “Assum preto”, de Luiz Gonzaga, que foi “cego dos óio” e, “num vendo a luz, canta de dor”.  


A segunda parte da obra é dedicada à filha que Alelí teve, já agora no Brasil, quando conheceu Manuel Juruna em São Félix do Xingu, no Pará. Por ter dado à luz na cidade de Altamira, esse será o destino de Maria Altamira. Mais uma pausa. Agora enquanto escrevo, simultaneamente pesquiso, no Google, esses nomes que não conhecia, São Félix do Xingu, Yungay, Volta Grande do Xingu, Paquiçamba. A história da usina de Belo Monte eu conhecia dos noticiários, ainda tenho imagens mentais da resistência/oposição que se noticiava. Mas agora torno a pesquisar, busco Belo Monte, pois percebi que o que sabia/lembrava era igual a nada.  


Sim. Fim da pausa. A segunda parte do romance, que se chama “A filha”, vai girar em torno da polêmica construção da Usina de Belo Monte – um pouco antes, pois acompanhamos alguns personagens indígenas, com espanto, observando homens medindo terreno aqui e ali. É curioso como a “ideia de progresso” invade a cabeça das pessoas e até creem que não é algo de todo ruim. Invade, também, na narrativa, a cabeça de alguns moradores de Altamira, como a de Nice, amiga de Maria Altamira, que achava que o progresso trazido pela nova usina, ali a ser construída, equivaleria ao grande fluxo de homens na cidade, o que viabilizaria, assim, a chegada de seu homem. Quando li essa passagem, lembrei-me imediatamente do filme Bye Bye Brasil, de Cacá Diegues, de 1979. Nesse filme também as pessoas são seduzidas por essa ideia de progresso, assim como foram seduzidas na época da construção da Rodovia Transamazônica, levando – não no livro, mas no filme – várias pessoas até Altamira em busca (um “Eldorado”, parece) de dinheiro. Quando assisti a esse filme, pelos idos de 2010 – numa ocasião acadêmica de, após concluir minha licenciatura em Letras, ingressar no recém-inaugurado curso de Audiovisual/cinema da Universidade Federal de Sergipe e começar a ver filmes compulsoriamente –, conheci um Brasil que me era mais ou menos desconhecido, um Brasil do interior, daquela década de 1970 seduzida não só pela Transamazônica, como também pela TV, pelo rádio. Agora, com Maria Altamira, sou confrontado novamente com essa questão. Que Brasil é esse que desconheço? Quantos Brasis podem caber dentro de um Brasil? Quantos Brasis mais ainda me vou deparar daqui pra frente? 


Ainda na segunda parte da obra, mais aversões na leitura. As práticas de estupro (ou a “cultura do estupro”), fazendo da cidade um degredo. As palafitas por cima do rio sujo, onde mora Biu com a família – imagens que eu já vi uma vez em documentário que não me lembro qual. A homofobia contra Curau e Cipó. E Alelí? Bem, Alelí continua sua errância, magistralmente narrada de forma paralela, em páginas de cor preta. E sempre nos momentos em que Alelí, quando finalmente parecia indicar estacionar em algum lugar, dava prosseguimento a sua errância, eu me perguntava: até quando? Até onde vai essa mulher, essa mesma mulher que ficou espantada quando, em uma cena qualquer de sua errância, pergunta ao motorista do ônibus que ano era aquele, e ouve atônita tantos números: “dois mil e quinze”. 


Uma parte que me tocou de maneira especial se encontra no capítulo “Força-ímã”. Numa das visitas de Maria Altamira ao Paquiçamba, ao povo Yudjá, na aldeia Muratu, na tentativa de recompor um vitral estilhaçado de seu passado, do assassinato do pai naquela aldeia indígena, ali ela teve um momento de “reconciliação mental” com a mãe que a abandonara e se mantém ausente. Nesse momento, desabafa o narrador: “Seu coração doeu de amor. Como explicar a força-ímã com que a terra onde fomos criados nos atrai?” (p. 206). Essa é uma pergunta que também me faço constantemente. Tocou forte. Nascido e criado na cidade de Aracaju, sempre senti um desajuste com relação a “minha” cidade, um descompasso, um muro entre mim e aquilo que entendemos por cidade. Pequena demais. Provinciana demais. O “demais” só vim a descobrir no mundo lá fora. Com cinco anos vividos “lá fora”, trajetória quase próxima de Maria Altamira (no quesito temporal), comecei a me fazer a mesma indagação: por que o lugar que crescemos insiste em cantar para nós como o canto das sereias? Que estranha necessidade é essa de querer voltar? Maria voltou para Altamira. Eu também acabei voltando. 


No intervalo de tempo em que acabava de ler e ligava o computador, comecei a folhear o livro para relembrar cenas. Incrivelmente, a página que parei e escolhi abri continha uma cena que talvez me tenha deixado mais reflexivo. Talvez, não. Foi a cena que definitivamente me deixou mais pensativo. Em São Paulo, com o amigo Elizeu, Maria Altamira participa de uma manifestação numerosa contra a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte. Nessa passagem, diz o narrador: “Os três se juntaram ao coro, contentes com a solidariedade urbana aos povos da floresta, a expressão da consciência de que, sem ela, a vida acaba, que está tudo ligado, a cidade e a mata, o cinza e o verde e o azul, a terra, o céu, as águas” (p. 161). Eu não sei até onde vai essa nossa consciência coletiva do/no urbano para com a floresta, com a nossa floresta amazônica, com os povos indígenas. O que se fala do massacre que esses povos sofrem? Cadê os Yanomami que a mídia pouco mostra ou se interessa? Tenho convicção de que se fosse um grupo de europeus desaparecidos no meio da floresta, rapidamente teríamos um “evento midiático”. Estou insistindo na mídia porque, goste ou não, a “grande mídia” tem seu alcance e acaba sendo um “termômetro” (não o único, claro) do que acontece lá fora. 


Depois de escavar o “até onde vai nossa indignação com a violência à vida indígena” por um bocado de tempo, fui enfim ler os comentários dos críticos, que precedem a narrativa. Quando li o comentário da professora Regina Dalcastagnè, não sei bem explicar/processar se aquilo que senti foi frustração, decepção, revolta. Diz a Regina: “Por isso, também, a surpresa da bela narrativa, que nos envolve e, de algum modo, nos responsabiliza” (p. 11). Exatamente. Talvez tenha eu sentido isso, sem saber traduzir em palavras. Senti, ao final da leitura, que esse livro também estava me responsabilizando. Por eu desconhecer esse Brasil que não está longe – está aqui e agora. Por eu desconhecer a pauta indígena e só saber daquilo que me é transmitido ocasionalmente pela TV. Outra pausa. Ainda folheio o livro para resgatar cenas. 


É isso. Não tem como não se sentir responsabilizado, como disse a Regina. Não tem como não se sentir minimamente horrorizado com a cena onde o novo diretor do hospital que Mãe Chica trabalhava, ao vê-la assistindo uma indígena, diz algo como “eles têm carro, celular, roupa de branco, mas só quando veem ao hospital se lembram que são índios para usufruir da legislação”, não recordo o lugar exato da passagem, puxo da memória. Se a gente morre um pouco, “como todos dali estavam morrendo” (p. 160), a gente também é um bocadinho responsável e a nossa indiferença diz isso. Digo “nossa” porque eu (também) faço parte desse coro dos indiferentes. 


Maria Altamira ainda está aqui, revirando meus pensamentos. Que Brasil é esse que desconhecia? 

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