A vida em desuso
A vida é um hospital
Onde quase tudo falta.
Por isso ninguém se cura
E morrer é que é ter alta
(FERNANDO PESSOA, In: Quadras. Lisboa: Assírio e Alvim, p. 50).
Talvez os poetas sejam os que melhor sentem e experienciam as agruras da vida, os que mais se encontram desencaixados no mundo, os que mais nutrem uma espécie atormentadora de inconformação com a realidade. Sujeitos que convivem com uma dor diária, com uma melancolia que desbota a cor do real a sua volta – claro, nem toda poesia é isto, e nem toda criação literária nascerá deste pranto. Estes poetas – atormentados, inconformados, incapazes, rebeldes algumas vezes, transgressoras outras vezes – carregam algo daquilo que um pensador romeno, Emil Cioran, falava a respeito da vida: um banho de fogo de enfermidade (sobretudo em sua primeira obra escrito em romeno, Sur les cimes du désespoir, “Nos cumes do desespero”), onde não há esperanças, onde não há saídas, onde não há sentido viver, porque a vida é puro desespero e agonia – Schopenhauer, de certo modo, também assim pensou: afinal, quando nascemos, a primeira coisa que fazemos é chorar. Por isso, até hoje, é difícil ler poesia. Porque em cada poema há um mundo. Cada poema é uma galáxia. Cada poema é um solo onde o poeta exorciza todo o sentimento, toda a angústia.
Por
muito a poesia é isto: quando a vida não basta. São vários os motivos que
talvez expliquem a inconformação do poeta perante a realidade: seja social,
seja existencial. O poeta é sempre um exilado. O poeta é sempre um estrangeiro
no mundo. Um “outro” que parece um ser diferente dos demais. Que tem uma visão
diferente da visão dos demais. Mas também o poeta é aquele que diz da realidade,
mas de modo diferente. E diz de tal modo (universal) que nós, leitores, nos
identificamos com aquilo: quem nunca, ao ler um poema, não sentiu essa
identificação a ponto de dizer: não sou o
único a sentir isso. E é por isso que a poesia nos conforta, porque quando
fala da vida, fala de nós. Estamos no
poema.
Uma
das angústias que mais acomete ao poeta é a falta de sentido na vida. É a busca
de sentido. Por isso o poeta é um sujeito desencaixado. Porque se não há
sentido na vida, não há razão de viver nela. Que sentido é este? O que causa
esta falta de sentido? Inúmeras respostas. Mas desde a Antiguidade, passando
pela lírica trovadoresca na literatura portuguesa, até os cumes do século XIX,
o amor (a ausência do amor ou a inacessibilidade do amor) foi (e continua
sendo) um articulador desta falta de sentido. Sem amor não há sentido. O amor é
o que dá sentido e direção à vida. “Orfeu
menos Eurídice, coisa incompreensível”, como nos diz Vinícius de Morais em
seu Monólogo de Orfeu (e tão bem declamado por Maria Bethânia em Tempo, tempo, tempo, tempo). Na
mitologia, o nascimento de Afrodite já circunscreve os dois lados da moeda:
amor/dor. Na lírica trovadoresca em Portugal, os trovadores, especialmente os
dos cantares d’amor e d’amigo, tão bem nos mostraram como o amor realça a cor
da vida. Já a poesia romântica nos mostra como a vida pode ser um tormento
quando o amor (ou o Amor, em maiúsculo) está inacessível, sempre longe,
inatingível. O poeta romântico sempre tenta alcança-lo, sem sucesso. Daí
perseguirem sempre a face da morte.
Também
o tormento da lembrança de uma catástrofe torna, para o poeta, insuportável
viver. As tantas catástrofes do século XX tornaram a existência algo quase
impossível. Basta lembrarmo-nos de poetas que sobreviveram à guerra, como um
Georg Trakl e um Paul Celan, e por viverem atormentados de lembranças o
suicídio foi a única saída. Seja pela ausência
do amor, seja por uma experiência traumática ou por qualquer outro motivo, os
poetas têm sempre uma missão: fazer alguma coisa nesta vida, quer dizer,
transformar a vida em escrita, transformar a vida em poema.
Se
a vida é dor, é preciso escrever. E para escrever é preciso levar a cabo aquilo
que, de forma exata e certeira, disse o ensaísta francês Maurice Blanchot: “para escrever um único verso, é necessário
ter esgotado a vida” (Maurice Blanchot, in: O espaço literário, Editora Rocco,p. 91). Para escrever, o poeta se
dilui por completo na obra. Afinal, se a vida não basta, a única coisa que lhe
resta é a escrita.
Voltamos
à afirmação: por isso ler poesia é muito
difícil (há quem passe anos só para esgotar a compreensão de um único
poema). Nunca saberemos e nunca chegaremos à dor sentida do poeta. Alguma
crítica literária até dirá, e com razão: e não é interessante saber daquilo que
o poeta sentiu, pois o que interessa é a obra. O poema é sempre um campo minado
onde é preciso ter cuidado, onde, por vezes, nos sentimos virados de cabeça pra
baixo.
Lembrando
um poema do Manuel Bandeira, “Renúncia”, o que resta ao poeta é isto: tentar
curtir, sem queixa, o mal que lhe crucia, porque o mundo, de fato, é sem
piedade (Bandeira, talvez, seja um dos melhores exemplos para esta prosa sobre
vida/dor/criação literária, já que vivia constantemente ameaçado pela morte por
conta da tuberculose, e viveu muito...). A última estrofe do poema do Bandeira
termina com o seguinte verso: “Encerra em
ti tua tristeza inteira”. Curtir, encerrar, para viver uma vida de
renúncia, de sacrifício. Afinal, todo poeta vive de renúncias. A vida é
constante renúncia diante da conformidade dos que aceitam tudo que lhe é
imposto. O poeta não é conformista. E nem pode ser. O poeta sempre diz não.
Lembrando um filósofo do século XVI, Blaise Pascal, em sua monumental obra Os Pensamentos, muitos são os
entretenimentos e as distrações da vida que põem o homem em apatia e
conformismo (veja como Pascal diz isso no século XVI e é tão característico de
nossa contemporaneidade!). Por isso o poeta é um sujeito que está – e estará – sempre à margem.
A
vida em desuso. A vida em declínio. Fundo sem fundo. Vários são os poetas e
poemas que poderíamos citar aqui nestas notas extremamente introdutórias a uma
questão teórica ainda muito cara à própria teoria da literatura: a dor como
mola propulsora da criação literária, quer dizer, quando a poesia beira o
niilismo. Termino com dois poemas de dois poetas de tempos diferentes, mas que
dialogam entre si. Um, “Silêncio” de Medeiros e Albuquerque, poeta pernambucano
ainda muito esquecido, introdutor do simbolismo no Brasil e cronologicamente
precedente à Cruz e Sousa. Aliás: o romantismo é o maior movimento quando
falamos de dor como criação, tendo em vista sua complexidade e seu forte traço
existencial. Outro poema: “Soneto da contradição enorme”, de Torquato Neto,
poeta piauiense desaguando na Bahia e peça chave para o tropicalismo. Talvez
não seja acidental terminar estas notas com um poeta simbolista e um poeta “marginal”
da poesia contemporânea (acidental também por serem dois sonetos), tendo em
vista que a “poesia marginal” tem um traço existencial e um apelo ontológico um
pouco próximo da poesia simbolista. Fiquemos com os poemas. Fiquemos com.
SILÊNCIO
Cala. Qualquer que seja esse tormento
que te lacera o coração transido,
guarda-o dentro de ti, sem um gemido,
sem um gemido, sem um só lamento!
Por mais que doa e sangre o ferimento,
não mostres a ninguém, compadecido,
a tua dor, o teu amor traído:
não prostituas o teu sofrimento!
Pranto ou Palavra - em nada disso cabe
todo o amargor de um coração enfermo
profundamente vilipendiado.
Nada é tão nobre como ver quem sabe,
trancado dentro de uma dor sem termo,
mágoas terríveis suportar calado!
(MEDEIROS E ALBUQUERQUE, In: Canções da decadência e outros poemas, Editora Martins Fontes,
2003, p. 153).
SONETO DA CONTRADIÇÃO ENORME
Faço força em esconder o sentimento
Do mundo triste e feio que eu vejo.
Tento esconder de todos o desejo
Que eu não sinto em viver todo o momento
Que passa. Mas que nunca passa inteiro.
Deixa comigo o rosto da lembrança
E o fantasma de só desesperança
Que me empurra e de mim me faz obreiro
De sonhos. Faço força em esconder
Do mundo, a dor, a mágoa e a cabeça
Que pensa tão-somente em não viver.
Faço força mas sei que não consigo
E em versos integral eu me derramo
Para depois sofrer. E então, prossigo.
(TORQUATO NETO, In: Torquatália - do Lado de Dentro, vol. I, Editora Rocco, 2004, p.
46).
§
Rodrigo Araujo.
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