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Mostrando postagens de 2011

Sociologia da fotografia e da imagem: a presença do ausente

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      "A Fotografia não documenta o cotidiano. Ela faz parte do imaginário e cumpre funções de revelação e ocultação da vida cotidiana. Portanto, as pessoas são fotografadas representando-se na sociedade e representando-se para a sociedade. A fotografia documenta, como atriz, a sociabilidade como dramaturgia. Ela é parte da encenação". (José de Souza Martins, A sociologia da fotografia e da imagem, p.47. Ed. Contexto, 2009).           Um excelente livro para o campo das teorias da fotografia, não apenas para ir além da tese barthesiana de fotografia apenas como registro e documento do real. Um livro para pensar a fotografia como inventiva, simuladora, um indício do irreal que domina e inventa o Outro.         As fotografias que compõem o livro do sociólogo José de Souza Martins fazem parte do ensaio fotográfico CARANDIRU: A presença do ausente. A fotografia acima tem o título "A prisão vista da torre de Babel (2002...

Paulo Leminski: um tear de palavras ou uma máquina de pensar

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          Tomar a linguagem como objeto para a compreensão de uma filosofia da linguagem, filosofia esta que Auroux (2009) chamou atenção para não ser reduzida “à filosofia das ciências da linguagem” (AUROUX, 2009, p.8), permite articular uma relação de sentido da linguagem com o mundo (1)  [1] , de significação como apontou Auroux, onde “o mundo participa da significação da linguagem” (AUROUX, 2009, p.64) – onde é a língua, pois, que materializa os sentidos, que muito diz de nós na relação com o exterior (excluído nas relações saussurianas); língua que também “tem formas próprias para expressar o elemento subjetivo” (GUIMARÃES, 1995, p.16). Sendo a linguagem o atributo próprio da humanidade, a escrita, assim, pode exercer a função transformadora do estatuto da fala , fazendo valer a tese de que é a escrita um jogo ordenado de signos. Signo que se dispersa no espaço.             O poeta curitibano Pa...

O Erostrato de Jean-Paul Sartre: algumas notas de filosofia e literatura

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O diálogo entre Filosofia e Literatura é  tão antigo quanto imaginamos. Filósofos que se valeram da literatura, e poetas que se apropriaram de questões filosóficas. Mas não significa reduzir a obra literária a um espaço que ilustra teses filosóficas, por exemplo. Dos diálogos entre Filosofia e Literatura, tem-se apontado a necessidade de “ desconstruir, na teoria e na prática discursiva, o legado autoritário das disposições disciplinares ”, como diz o ensaísta Evando Nascimento. Não apenas para pôr por terra as disciplinas, mas por acreditar que é na constituição de um espaço aberto na obra literária que se dá o diálogo entre ambos os discursos. Para proporcionar um encontro entre filosofia e literatura, é preciso que uma fecunde na outra, numa relação transacional, para lembrarmos do crítico literário e filósofo Benedito Nunes, que em sua atividade crítica buscou investigar a "transa" entre filosofia e literatura. Relação onde uma polariza a outra, sem que filosofia deixe d...

Uma estrada para Julio Cortázar.

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                      Grande contista latino-americano, com uma extensa obra onde perpassam elementos do fantástico e do maravilhoso (sobre esses gêneros na narrativa cf. T. Todorov Iniciação à Lit. Fantástica , 1977; I. Chiampi, O Realismo Maravilhoso , 1980), Julio Cortázar é nome de peso para a crítica latino-americana. Não falarei de sua obra, apresentarei aqui o conto que abre seu livro “ Todos os fogos o fogo ”, A AUTOESTRADA DO SUL. Não apenas é aquele conto que abre um livro de contos, é um conto que permite percorrer as estradas de Cortázar.             A Autoestrada do Sul narra um acontecimento corriqueiro, bem prosaico: um engarrafamento na autoestrada que leva a pequena cidade de Fontainebleau a Paris. No conto, os personagens não são identificados por nomes, e sim pela marca dos seus carros, sendo eles a moça do Dalphine, o casal do Peugeot, as freiras do 2HP, os ...

Minha vida, meu aplauso: o grito pela liberdade de A. Herzer

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Alguns se atrevem a fazer imensuráveis listas dos 100, 200, 300 livros a serem lidos antes de morrer – no fundo todos têm livros a indicar. Pois bem, sem dúvidas um livro que não pode faltar nessas listas é o livro de um poeta quase caído (se não caído) no esquecimento pela crítica literária, Anderson “Bigode” Herzer, ou Herzer. Sim, poeta paranaense de Rolândia antes chamado Sandra Mara. Poeta transexual, marginalizado, crucificado e incompreendido pela sociedade. Sua única produção, o livro A QUEDA PARA O ALTO, foi produzido em sua passagem (longa passagem) pela FEBEM na década de 80. Sandra foi uma pessoa que teve o sofrimento e a morte como companhias. Perdeu o pai aos 4 anos de idade e a mãe aos 7. Órfã, foi adotada pelos tios. Descobriu na infância que a mãe era vulgar e infiel no casamento. Trouxe ainda as marcas de um pai que lhe assediava. Com o novo lar, sua vida continuou trucidada, não teve atenção dos tios, até o cachorro que tanto amava (depositava a chama do amor ...

Entre algas de silêncio ou como pensar uma página vazia.

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         O que dizer das algas? O que dizer? Talvez o mote deste texto que você lê seja a morte, ou até o silêncio – não precisaria logos para silêncio. Haveria de dizer que, quando penso nas algas de silêncio, penso em Ivan Junqueira, poeta e ensaísta brasileiro. Mas este texto não é sobre o poeta. E não penso só em um poeta, penso em poetas. E talvez por traz do mote esteja o objetivo desse texto, ver poetas e algas.             Primeiro, penso no silêncio. O que dizer silêncio? Corroboro com aqueles que dizem ser difícil falar do silêncio, há o que falar em códigos verbais do silêncio que é não-verbal? (estaria seguindo os passos de um Epicuro quando diz que a morte não nos diz respeito). A outra parede que parece tornar difícil falar em verbos do silêncio é o fato de nós ocidentais sermos regidos por um logos e pela lógica (aristotélica). Mas não quero falar aqui de história da filosofia. Mesmo arrisc...

A poesia que vaza pelas frestas: um pouco de Paulo Leminski

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         No campo da literatura pós-romântica – para lembrar o termo usado por Antonio Candido em Literatura e Sociedade – o momento decisivo veio com a inovação estética modernista e sua afirmação singular de modernidade, bem como os dois grandes nomes que revolucionaram não só o romance brasileiro, como também um projeto estético literário: Guimarães Rosa e Clarice Lispector. De um lado, Clarice onde o mergulho intimista dos personagens perpassava a narrativa, e de outro Guimarães Rosa que, em um excelente estudo topoanalítico, pinta um sertão que é a alegoria do Brasil, não aquele sertão que foi retratado na literatura dita ‘regional de 30’. Mas convém notar que antes, em termos de inovação estética sobre o romance, Oswald de Andrade, lançara o seu enigmático Memórias Sentimentais de João Miramar , estruturalmente fragmentado, tendo a sua diegese conduzida por cartas e anotações.   Outro momento decisivo para o cenário da literatura f...

Uma leitura do filme Air Doll: alegoria e crítica do corpo e do sujeito

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            Adentrar na cultura japonesa, para nós ocidentais, não é fácil. E é impressionante o número de pessoas, esses cults da vida, que amam tudo oriundo do Japão. Mas para sentir a essência da arte japonesa é preciso transcender. Ou como diria um filósofo chamado Martin Heidegger, “para entender o Japão é preciso morar nele”.  É de essência que podemos citar o teatro japonês, o Kabuki, ou um Rashomon, de Kurosawa (quer filme mais imagético e simbólico para pensar a arte japonesa?).             Mas quero falar de um filme muito feliz: Air Doll ou Boneca Inflável no português, do diretor Hirokazu Koreeda. A uma simples vista, o roteiro parece não apresentar nada de especial: um garçom visivelmente comum e sem muitos projetos de vida, e sua boneca inflável que, além de servir para os desejos sexuais, é sua companheira. Mas a boneca, chamada Nozomi, começa a se huma...