Kon Ichikawa, ainda... Solidão, existência e morte
Com Harpa da Birmânia e Fogo na Planície podemos ver personagens em plena queda livre, ou em pleno mergulho no sofrimento existencial: Mizushima, mesmo movido por grande esperança, mergulha na tristeza do ser; Tamura, mesmo resistindo ao canibalismo, mergulha no que há de mais podre na existência. Percebe-se o interesse de Kon Ichikawa, neste momento, por personagens que reflexionam aquilo que o filósofo Blaise Pascal insistiu em seu pensamento, em pleno racionalismo cartesiano do século XVII, que é o estar diante da fragilidade das coisas e da miséria humana . Penso que Mizushima, o harpista, seja o personagem que melhor compreendeu que a grandeza do homem é re-conhecer sua miserabilidade, como nos diz Pascal no belíssimo Fragmento 114 de sua obra Pensamentos (2005, Ed. Martins Fontes): “ A grandeza do homem é grande por ele conhecer-se miserável ”. Não parece distante daquela “primeira grande verdade” ( Dukka ) que ensinou Buda no budismo primitivo: que nascer já é sofrer e é pr...