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Mostrando postagens de setembro, 2014

Kon Ichikawa, ainda... Solidão, existência e morte

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Com Harpa da Birmânia e Fogo na Planície podemos ver personagens em plena queda livre, ou em pleno mergulho no sofrimento existencial: Mizushima, mesmo movido por grande esperança, mergulha na tristeza do ser; Tamura, mesmo resistindo ao canibalismo, mergulha no que há de mais podre na existência. Percebe-se o interesse de Kon Ichikawa, neste momento, por personagens que reflexionam aquilo que o filósofo Blaise Pascal insistiu em seu pensamento, em pleno racionalismo cartesiano do século XVII, que é o estar diante da fragilidade das coisas e da miséria humana . Penso que Mizushima, o harpista, seja o personagem que melhor compreendeu que a grandeza do homem é re-conhecer sua miserabilidade, como nos diz Pascal no belíssimo Fragmento 114 de sua obra Pensamentos (2005, Ed. Martins Fontes): “ A grandeza do homem é grande por ele conhecer-se miserável ”. Não parece distante daquela “primeira grande verdade” ( Dukka ) que ensinou Buda no budismo primitivo: que nascer já é sofrer e é pr...

Exercícios negativos de Kon Ichikawa

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O título destas notas já é autoexplicativo. Quer dizer, já aponta para o tipo de leitura que segue. Para o leitor do pensador romeno Emil Cioran, é sabido que “ Exercícios negativos ” foi o título de rascunho para a primeira obra em língua francesa deste prosador radicado em Paris, o “ Breviário de Decomposição ” ( Précis de décomposition ). Nestas notas, meu objetivo é: ler dois filmes dos anos 1950 do Kon Ichikawa guiado pela filosofia de Cioran. Nascido em 1915, Kon Ichikawa tem uma vasta produção, e em alguns de seus filmes trabalhou conjuntamente com a esposa, Natto Wada. A pesquisadora em cinema japonês, Maria Novielli, tinha tudo para fazer de sua enciclopédia, “ História do Cinema Japonês ”, uma obra grandiosa, mas suas análises e descrenças em alguns diretores chegam a ser assustadoras em determinados pontos, deixando sua obra bastante mediana em termos de crítica. No tópico dedicado ao Kon Ichikawa, Novielli começa argumentando que até o início dos anos 1960, Ichikawa “ ...

Para que nasça um poema: algumas notas sobre o poeta japonês Tamura Ryûichi

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Apresento, abaixo, uma tradução literal minha de um belíssimo poema do poeta japonês Tamura Ryûichi. Traduzo do francês o poema “Quatro mil dias e noites”, de 1956, que consta em uma edição francesa que reúne principais poemas de poetas japoneses do século XX, “ Anthologie de poésie japonaise contemporaine ” (Paris, Editora Gallimard, 1986).  Quatro mil dias e noites Quatre Mille jours et nuits [ Yonsen No Hi To Yoru ] Para que nasça um poema, É preciso matar, É preciso matar muitas coisas Que amamos, Assassiná-las, envenená-las. Veja! No céu de quatro mil dias e noites Por desejar a língua trêmula de um pássaro O matamos Sobre o silêncio de quatro mil noites E sobre o resplendor de quatro mil dias. Ouça! Em todas as cidades e em todos os fornos, sobre a chuva, Em todos os portos e em todas as minas no solstício de verão, Pela necessidade de arrancar lágrimas de uma criança faminta Nós assassinamos O amor de quatro mil noites E a pi...