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Estética da Fome, Cinema Novo, Literatura: possíveis diálogos

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Este texto tem como objetivo discutir o texto 'Estética da Fome', de Glauber Rocha, para pensar o cinema novo brasileiro e estabelecer diálogos com os campos teóricos na tentativa de compreender o que foi o cinema da década de 60, sua proposta e, assim, ler o Brasil. Olhar o Outro é completá-lo e nós mesmos precisamos desse Outro para construir nossa identidade. Aquilo que o M. Bakhtin denominou de ‘Exotopia’ – o olhar de fora – pode ser aplicado aqui. O caso do Brasil é que o Outro nos colonizou, negou nossa identidade e valores, e fez afirmar a condição de colônia. A figura do Europeu esteve presente não só numa esfera sócio-histórica como também na esfera da arte, a arte literária principalmente, e podemos ver esse reflexo nos estilos de época, mas foi preciso os modernistas de 20 para lançar uma estética de libertação, para nos desvencilhar e construir um projeto de literatura e língua nacional. Esse projeto veio pelas vias da Antropofagia, deglutindo o que vem de fora e...

"A Morta", de Oswald de Andrade: um convite ao teatro antropofágico

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"A Morta", peça de Oswald de Andrade escrita em 1937, é a última e mais densa peça do poeta modernista. Apresentada em três quadros, O País do Indivíduo, O País da Gramática e O País da Anestesia, esta obra soma-se a outras duas peças do autor,  O Rei da Vela e O Homem e o Cavalo, e formam a “Trilogia da Devoração” do Teatro Antropofágico de Oswald.     A peça reflete grande inquietude deste poeta, criando um teatro que possibilita um experimento com a linguagem. Muitos conhecem o Oswald de Andrade poeta e crítico do modernismo, e suas peças teatrais passam despercebidas pelo olhar do leitor. Um erro impetuoso, pois suas peças são verdadeiros gritos. Diante d’A Morta, o leitor deve montar um mosaico, pois a peça é uma teia de referências (intertextos), os personagens não têm suas personalidades próprias, funcionam como índices. Beatriz, a personagem central, que foi a musa inspiradora de Dante; Horácio, grande poeta lírico; o personagem Urubu, que faz re...

Lanternas sentimentais no escuro da morte

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      Certo poema do Mário de Sá-Carneiro diz: “Perdi-me dentro de mim, porque eu era labirinto”. Às vezes, nos vemos perdidos em labirintos de Dédalo sem fio. E quem se perdeu do fio foi uma poetisa que acabou com a vida por causa da arte. Túneis escuros, pouca luz para esta cena.             Há pouco mais de um mês, no dia 5 de outubro de 2010, um caso um tanto peculiar: A poetisa e artista plástica Maria Cristina Gama, aracajuana, se suicida com uma faca, pois não conseguia mais lançar livros e que ninguém mais lia poesias no mundo contemporâneo. Era uma grande artista que pintava com as palavras e trabalhava a linguagem ao máximo. Certamente a velocidade do mundo moderno rasgou as linhas de seus pensamentos. Mundo cada vez mais globalizado e virtualizado nos campos do ciberespaços. Leia também: Rede cada vez mais rede   Virtualização do corpo: os caminhos de sua antropologia visual  ...

Semiótica e fotografia: algumas notas

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 ‘A fotografia sempre me espanta’, dizia Roland Barthes em A Câmara Clara .  Embora não tenha surgido com o intuito de substituir a pintura, a fotografia superou o retrato a óleo sobre tela por questões técnicas. Tentaremos pensar, aqui, a fotografia como um processo artístico capaz de representar mimeticamente o mundo exterior dentro da pesquisa semiótica.                      Roland Barthes indagava: “Será que a imagem é simplesmente uma duplicata de certas informações que um texto contém e, portanto, um fenômeno de redundância, ou será que o texto acrescenta novas informações à imagem?” Essa relação Palavra x Imagem é um tanto cara para eu me aprofundar aqui, tendo em face suas semelhanças e distinções no rol de aspectos imagéticos, até porque poderíamos passar horas discorrendo sobre imagens verbais e imagens mentais, bem como a imagem da palavra – ou o que Alfredo B...

Os caminhos de Monteiro Lobato na escola.

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            Obra de Lobato sob a ameaça de ser censurada na escola pública ou que venha com um aviso de conteúdo racista. A literatura de Monteiro Lobato é danosa para as crianças? A tentativa de evitar que crianças a leiam partiu de um mestrando.            Na última sexta-feira, 29 de outubro, o servidor da Secretaria do Estado da Educação do DF, Antonio Gomes da Costa Neto, encaminhou a denúncia de que partes do livro ‘Caçadas de Pedrinho’, de Monteiro Lobato, teriam conteúdo racista e que o autor devia ser evitado nas Escolas. O jornal ESTADÃO publicou uma matéria e recorto aqui o seguinte trecho: Para o CNE [Conselho Nacional de Educação], os professores da rede pública não estão preparados para lidar com esse tipo de mensagem em sala de aula. O autor da denúncia, o mestrando em relações raciais da UnB Antonio Gomes da Costa Neto, acredita que o livro de Lobato “d...

Literatura, Arte e Mercadoria em diálogo: A ilusão da liberdade da arte.

            A pergunta que sempre será recorrente é: para que serve a arte? Uma pergunta, pois, ausente de pensamento. E aqueles que fazem essa pergunta também questionam para que serve a literatura e, pior, querem saber o que literatura tem “a ver” com arte. Como se estivéssemos falando de um Serviço Militar para a arte ter de servir. Quem acha que a poesia deve servir para alguma coisa ou dar lucro não ama, de verdade, a poesia. Para pensar a arte e a literatura com pano de fundo o mundo burguês e a mercadoria, trazemos à luz o ensaio de Paulo Leminski, Arte In-útil, arte livre? (que está no seu livro Anseios Crípticos , 1997) e, após, alguns trechos de outros ensaios do mesmo livro, para concluir o pensamento da arte e da poesia. ARAUJO, RODRIGO M. S. ARTE IN-ÚTIL, ARTE LIVRE? A curiosa idéia de que a arte não está a serviço de nada a não ser de si mesma é relativamente recente. Data do romantismo europeu do século X...

[Dica de Leitura] A Poesia do Acaso

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       A dica de leitura do líriospretos vai para os interessados no movimento contracultural e na poesia spray, desde a sua origem nos muros da Sorbonne de maio de 1968 até a chegada do movimento e da poesia marginal no Brasil. O livro da Cristina Fonseca, A poesia do Acaso (na transversal da cidade) é um desses raros de se encontrar nas estantes, reúne várias poesias-spray, grafismo como define, bem como algumas entrevistas sobre essa poética que ultrapassa o código verbal, que tende para o não-verbal: icônico.        A radicalidade do pensamento mallarmaico foi o lance de dados para a poesia concreta, reinventa um código de comunicação, joga arquitetonicamente as palavras na folha em branco, no grande branco do silêncio. Dentre a reunião de entrevistas que o livro abarca, notável a entrevista do Décio Pignatari, de setembro de 81, onde ele fala da poesia marginal, do movimento contracultural e do spray, um ato público ...