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Alegria breve em Shohei Imamura

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Ora vejam: por que ainda nos assombra a crueldade? E chorar? Não é evidente que choramos não apenas diante da dor e do horror da vida? Não é isto que nos diz o padre António Vieira ao referir-se ao riso de Demócrito como uma ironia da lágrima? (A. Vieira, in As lágrimas de Heráclito , sermão italiano em edição brasileira pela Ed. 34). Ou tudo isto – amor, tristeza, raiva, alegria – não é senão afeto? Difícil mesmo é definir o cinema de Imamura dentro do cinema japonês pós-50. Quer dizer: fácil, mas igualmente fácil de se perder e ficar no óbvio. Cinema escorregadio. Minado. Cruel, às vezes. Começo pela sua crítica. Muito concentrada, aliás, nas primeiras produções de Imamura: “a predileção pelas camadas mais baixas da sociedade” como tema nuclear (Maria Roberta Novielli, in História do Cinema Japonês , 2007, Ed. UnB, p. 221); o que logo lhe rendeu a etiqueta de sociólogo do cinema japonês : “Imamura’s fascination with social anthropology” (Tom Mes and Jasper Sharp in The Midnight...

A vida como bailado

A morada do homem, o extraordinário (Heráclito, Fragmento 119, Diagrama) Eu morro ontem, Nasço amanhã, Ando onde há espaço (Vinícius de Moraes, Poética)        Não. A sensação é esta: ser estrangeiro não é apenas uma mudança de espacialidade, é descentralizar-se, ou melhor: é desterritorializar-se. Sim, estou a pensar em Félix Guattari, quando em sua obra Caosmose nos fala do sujeito contemporâneo desterritorializado, sem terra natal, sem ponto de origem. Tudo está em movimento. « Tudo circula […] tudo se tornou intercambiável» (Guattari, Caosmose ,1992, edição brasileira, Editora 34, p. 169). Estamos sempre a ser turistas (de nós mesmos) em terras outras. Sujeitos errantes como o flâneur baudelairiano das cinzentas ruas de Paris. Ser estrangeiro é jogar no espaço do Outro – desse mesmo Outro que os Estudos Culturais se ocupam: o negro, o gay, o colonizado. É jogar no campo da diferença cultural, da identidade, do hibridismo – inegável a co...

A vida em desuso

A vida é um hospital Onde quase tudo falta. Por isso ninguém se cura E morrer é que é ter alta (FERNANDO PESSOA, In: Quadras . Lisboa: Assírio e Alvim, p. 50).            Talvez os poetas sejam os que melhor sentem e experienciam as agruras da vida, os que mais se encontram desencaixados no mundo, os que mais nutrem uma espécie atormentadora de inconformação com a realidade. Sujeitos que convivem com uma dor diária, com uma melancolia que desbota a cor do real a sua volta – claro, nem toda poesia é isto, e nem toda criação literária nascerá deste pranto. Estes poetas – atormentados, inconformados, incapazes, rebeldes algumas vezes, transgressoras outras vezes – carregam algo daquilo que um pensador romeno, Emil Cioran, falava a respeito da vida: um banho de fogo de enfermidade (sobretudo em sua primeira obra escrito em romeno, Sur les cimes du désespoir , “Nos cumes do desespero”), onde não há esperanças, onde não há saídas, onde não h...

Curva da margem: Shuji Terayama e outros

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minha poesia não canta nada – como haveria de cantar? – berra todo nosso sufoco como um doido na camisa-de-força. vem do útero do ânus estuprado do peito doente da cirrose do fígado. minha poesia é o pânico a quarta dimensão terrível da vida consumada no porto da barra pesada das penitenciárias dos hospícios do pervintin da maconha da cachaça do povo na rua – do povo de minha laia. minha poesia é o hino dos libertinos q conspiram na noite dos generais... (Ras Adauto, poema “A pombinha e o urbanóide”, in: 26 POETAS HOJE, Org. Heloisa Buarque de Hollanda, 6ª Ed. 2007, p. 251).             Este poema do Ras Adauto é, para mim, um dos que melhor sintetiza o momento da poesia contracultural brasileira, da poesia marginal daqueles anos 70, ou poesia clandestina, como chamou Glauco Mattoso em seu livrinho O que é poesia marginal (Ed. Brasiliense, 2ª ...

O poema. O negativo. A tortura. Notas para encerrar 2014

Este blog não pode encerrar o ano de 2014 sem sublinhar dois poemas nucleares do recente livro ESTADO CRÍTICO (2013, Editora Hedra), do poeta paulistano Régis Bonvicino. Num livro cheio de citações, que absorve o barulho e o silêncio (veja o humor e contradição nisto) da grande metrópole, perpassado por metalinguagem, estes dois poemas que aqui reproduzo corporalizam bem algo que sempre tenho em mente acerca do que é poesia , do poder da poesia , de sua função : ser ruptura e subversão (da forma, a "desestabilização" como vemos em Heloisa B. H. em seu prefácio à antologia 26 Poetas Hoje , referente à poesia marginal, ou clandestina , como dizia Glauco Mattoso), que chegue, toque e atinja todas as camadas da vida : poesia-vida . Reproduzo abaixo os poemas: "Poema negativo" (primeiro poema do livro) e "Tortura". Poema negativo Régis Bonvicino, 2013 Um poema negativo é o que se paga bônus Sem vender livros Respira por aparelhos críticos ...