A vida como bailado
A morada do homem, o extraordinário
(Heráclito, Fragmento 119, Diagrama)
Eu morro ontem,
Nasço amanhã,
Ando onde há espaço
(Vinícius de Moraes, Poética)
Não. A sensação é esta: ser
estrangeiro não é apenas uma mudança de espacialidade, é descentralizar-se, ou
melhor: é desterritorializar-se. Sim,
estou a pensar em Félix Guattari, quando em sua obra Caosmose nos fala do sujeito contemporâneo desterritorializado, sem
terra natal, sem ponto de origem. Tudo está em movimento. «Tudo circula […] tudo se
tornou intercambiável» (Guattari, Caosmose,1992,
edição brasileira, Editora 34, p. 169). Estamos sempre a ser turistas (de nós
mesmos) em terras outras. Sujeitos errantes como o flâneur baudelairiano das cinzentas ruas de Paris. Ser estrangeiro
é jogar no espaço do Outro – desse mesmo Outro que os Estudos Culturais se
ocupam: o negro, o gay, o colonizado. É jogar no campo da diferença cultural,
da identidade, do hibridismo – inegável a contribuição de Homi Bhabha, em Local da Cultura (1998, edição
brasileira, Ed. UFMG) para este assunto. Antes de escrever esta nota,
lembrava-me de uns versos de uma música do Arnaldo Antunes que dizia isto: «A nossa é onde a gente está / a nossa casa é
em todo lugar». Claro, inegável ler estes versos sem ouvir, ao fundo, a voz
de Maria Bethânia a magistralmente interpretá-lo no concerto Carta de amor (2013). O
estrangeiro-desterritorializado está em casa sem estar em casa. Reside ai, entretanto, a questão nuclear da sua
relação com o espaço: a busca de novas construções de intimidade. Penso
especialmente em dois filósofos: primeiro, o epistemólogo francês Gaston
Bachelard (A poética do espaço, 1988,
edição brasileira, Ed. Martins Fontes), mesmo que seja menos lido na filosofia
e mais lido em outras áreas como a teoria da literatura e a psicanálise, nos dá
uma grande contribuição de que o ser habita oniricamente e intimamente o mundo,
que estes espaços que o homem habita e vive são a sua casa, a sua concha
acolhedora, o seu ninho de proteção, quer dizer, com Bachelard, viver é habitar
este espaço de hospitalidade, é senti-lo, envolver-se nele. Segundo, o filósofo
alemão Martin Heidegger, que nos deixa uma peculiar conferência de 1951 chamada
“… poeticamente o homem habita…”, onde lemos que a poesia é aquela que instaura
a força do habitar do homem no espaço. Afinal, viver é familiarizar-se a todo
momento. Por que falo disto? Por que penso nisto? Porque ser estrangeiro, em
outras espacialidades, é buscar a poesia que fundamente o habitar. É seguir a
trilha daquele personagem, o Grivo, de Guimarães Rosa (conto «Cara-de-Bronze»,
in: No Urubuquaquá, no Pinhém, 1969,
edição brasileira, Ed. José Olympio) e partir em busca da poesia, uma busca
transformadora. Com isto, ser estrangeiro é construir (novas) pontes de afeto.
Ser estrangeiro é partilhar de uma cultura do sentimento. Tão bem percebeu isto
um Fernando Pessoa, mesmo sem sair do lugar, ao dizer em um poema: «Todas as vidas que eu outrora tive / numa só
vida». Por isso sua poesia ser, por excelência, desterritorializada. Na
beleza e na angústia de ser estrangeiro, é melhor ficar com Fernando Pessoa, e
ouvir o sino da aldeia, em que cada badala soa
bem dentro de minh’alma. Pois o estrangeiro está sempre em devir:
construindo novas linhas, percorrendo novas dobras, bailando em curvas. A vida
é um bailado em que dançamos juntos, mas ao mesmo tempo danço só na noite negra onde só o pharol é real,
como vemos no poema de Violante de Cysneiros dedicado a Álvaro de Campos na Orpheu (Orpheu n. 2, p. 123). O que é
isto, então, viver? É circunvagar as ruínas em busca de uma descoberta
qualquer, de um sentido qualquer. É, tal como no poema «Aniversário», de Álvaro
de Campos, buscar e ter alguma esperança, quando já não sabia ter esperança, eu, sobrevivente
a mim-mesmo como um fósforo frio. Eu, esse estado de espera. Eu, esse
estado de inquietude. Eu, esse estado de dúvida, entre o pouso e a velocidade,
entre o estar-aqui e o estar-lá. Eu, potência de incertezas onde viver é o
instante da chama do fósforo que destina-se a apagar.
§
Rodrigo Araujo.
Dentro de vc haverá sempre um nós.
ResponderExcluirLima,Raquel
Lindo texto, querido. Sei muito bem o que é isso. Imagine o impacto quando o país estrangeiro que nos acolhe possui outra língua... É um aprendizado! Mas hoje não troco o Brasil por nada. Viagens, curtas estadias, tudo ótimo! Viver? Só aqui!! Beijo
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