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Literatura, Arte e Mercadoria em diálogo: A ilusão da liberdade da arte.

            A pergunta que sempre será recorrente é: para que serve a arte? Uma pergunta, pois, ausente de pensamento. E aqueles que fazem essa pergunta também questionam para que serve a literatura e, pior, querem saber o que literatura tem “a ver” com arte. Como se estivéssemos falando de um Serviço Militar para a arte ter de servir. Quem acha que a poesia deve servir para alguma coisa ou dar lucro não ama, de verdade, a poesia. Para pensar a arte e a literatura com pano de fundo o mundo burguês e a mercadoria, trazemos à luz o ensaio de Paulo Leminski, Arte In-útil, arte livre? (que está no seu livro Anseios Crípticos , 1997) e, após, alguns trechos de outros ensaios do mesmo livro, para concluir o pensamento da arte e da poesia. ARAUJO, RODRIGO M. S. ARTE IN-ÚTIL, ARTE LIVRE? A curiosa idéia de que a arte não está a serviço de nada a não ser de si mesma é relativamente recente. Data do romantismo europeu do século X...

[Dica de Leitura] A Poesia do Acaso

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       A dica de leitura do líriospretos vai para os interessados no movimento contracultural e na poesia spray, desde a sua origem nos muros da Sorbonne de maio de 1968 até a chegada do movimento e da poesia marginal no Brasil. O livro da Cristina Fonseca, A poesia do Acaso (na transversal da cidade) é um desses raros de se encontrar nas estantes, reúne várias poesias-spray, grafismo como define, bem como algumas entrevistas sobre essa poética que ultrapassa o código verbal, que tende para o não-verbal: icônico.        A radicalidade do pensamento mallarmaico foi o lance de dados para a poesia concreta, reinventa um código de comunicação, joga arquitetonicamente as palavras na folha em branco, no grande branco do silêncio. Dentre a reunião de entrevistas que o livro abarca, notável a entrevista do Décio Pignatari, de setembro de 81, onde ele fala da poesia marginal, do movimento contracultural e do spray, um ato público ...

Semiótica e literatura: quando o ícone invade o corpo verbal

É bem verdade que a Lógica seria um outro nome para a teoria geral dos signos (semiótica) postulada por Charles Sanders Peirce, onde ela está, ao lado da Ética e da Estética, no tripé das ciências normativas, ciência das leis necessárias do pensamento na busca da verdade. Para o leigo em semiótica, atentemo-nos ao fato de Semiótica (e vamos distinguir aqui Semiótica de Semiologia – estruturalista) dar conta das manifestações signicas, ciência nova, mas que (graças a Deus!) já vem sendo muito pesquisada nas universidades do Brasil, formando um rol de grandes estudiosos. Mas é importante atentar para o fato de não reduzir a Semiótica apenas à gramática especulativa, isto é, aos estudos do signo, visto que a Semiótica alicerça a lógica crítica e a metodêutica. Por enquanto, ficaremos com a citação de Décio Pignatari (2004, p. 21) acerca da teoria dos signos: “A semiótica, ou teoria geral dos signos, é uma indagação sobre a natureza dos signos e suas relações, entendendo-se por signo tudo...

O poeta que escreve silêncios: Arthur Rimbaud.

O poeta aventureiro Arthur Rimbaud, maldito como dizem alguns, teve uma vida intensa, explosiva como dinamite, quando a poesia aflorou em seus treze anos de idade, mas apenas por um curto período, onde viveu até os trinta e sete anos. Enquanto Baudelaire pintava a floresta de símbolos, Rimbaud “escrevia os silêncios, as noites, anotava o inexprimível” em (talvez) a mais significativa obra “ Une saison en enfer ”, marcada pelos Délires e pelo Mau Sangue . Deve-se notar – para sintetizar (muito) essas linhas que dizem respeito à vida e contexto histórico – que as inquietações de Rimbaud refletidas em sua poética devem-se a, pelo menos, dois fatores: primeiro, a guerra entre França e Prússia, a desordem que se instala em Paris com a queda do Segundo Império e a fome nas ruas; segundo, crises do poeta que o leva a enviar uma correspondência ao poeta Verlaine com seus poemas, culminando a sua ida a Paris por pedido de Verlaine. Não obstante, convém lembrar que, na esteira do simbolismo, o...

Fim de século: perspectivas para as vanguardas e a modernidade.

-->             O final do século XIX foi decisivo para o nascimento da boemia literária, dos vários “ismos” que surgem, dos movimentos vanguardistas, dos manifestos, enfim, do que a história da literatura chama de estética renovadora. Para compreender, por exemplo, o itinerário da literatura modernista brasileira e sua proposta, faz-se indispensável um percurso e conhecimento que aqui será feito (por mais sintético e metodológico que seja) dos ideais vanguardistas que efervesciam a Europa. O primeiro momento do modernismo brasileiro vem trazer essas tendências européias (onde Oswald de Andrade bem ilustra o espírito modernista importado da Europa em seu manifesto antropofágico), observando os quadros-revelação de Anita Malfatti, por exemplo. Mario de Andrade chama atenção para um espírito revolucionário de guerra produzidos em nós pelo momento europeu de vanguarda em seu “movimento modernista” - ANDRADE, 1978, p.231). Esse...

A Topofilia do Sertão na Literatura Brasileira: Recortes e uma Fotografia do Brasil.

            Esta resenha crítica é fruto de discussões do mini-curso sobre a obra poética de Guimarães Rosa no Encontro Regional de Letras de 2010 acerca da problemática da leitura de espaços na literatura rosiana bem como da nação. Aqui, serão alçados três pontos importantes (e propositais) para discorremos sobre o tema e discernir a problemática. Primeiro, em busca de uma definição filosófica da topofilia, desembocando em três momentos da literatura: o pré-modernismo , o chamado regionalismo nordestino de 30 e a geração de 45 , onde serão feitas algumas leituras do sertão que cada um desses momentos na literatura retrata. Segundo, compreender o Brasil a partir da leitura do primeiro tópico como uma nação heterogênea por formação histórica. Terceiro, o modo como Guimarães Rosa fotografa o Brasil e capta uma nação contraditória, onde se valerão algumas análises calcadas na semiótica da fotografia. 1     ...

Os poetas, como os cegos, podem ver na escuridão¹

      Olhar e compreender o Outro vem sendo uma questão reflexiva no Ocidente, principalmente quando destacamos duas conjecturas sobre esse olhar: uma, nas proposições filosóficas do alemão Martin Heidegger sobre o entrecruzar do ocidente com o oriente; outra, quando esse Outro nos completa. 1 Trecho da música Choro Bandido de Chico Buarque de Holanda e Edu Lobo. 1 Comecemos com o pensamento heideggeriano. A cultura oriental é marcada por uma riqueza de detalhes visuais e imagéticos e configurada no gestual. A cultura oriental, portanto, é carregada de signos não-verbais. Para esse assunto sobre a riqueza oriental indico alguns filmes: Um, A Escola do Riso , de Mamoru Hosi, 2004, onde o criador de peças japonesas, Tsubaki, quer levar o humor para o teatro – em pleno país em guerra – mas terá de ter a aprovação do censor Sakisaka-san. O filme é praticamente todo ambientado na sala do censor, o qual veta várias partes e, no contexto, acaba se tornando c...